Publicado por: Lara | Novembro 9, 2008

Herói do medo – composição de Carlos Lyra também foi censurada

Carlos Lyra – Música: Herói do medo

Herói do medo, não tenho medo
Do próprio medo que me torna herói
Com minhas regras eu faço o jogo
E logro um único parceiro: eu
Eu sou o primeiro e sou o último
Mas não assumo a condição humana
E me proclamo meu soberano
Na solidão despótica de um Deus
Herói do medo escrevo as tábuas
Da autoridade que repousa em mim
Pra que na terra não a despertem
Vou caminhando, em sonho, sobre as águas
Meu rastro assombra os cães de fila
E rende as preces das mães de família
Mais prevalece minha arrogância
Entre animais, mulheres e crianças

Herói do medo, firo e difamo
E me alimento da fraqueza humana
Com altivez eu dou e tomo
Mas não recebo nunca o oferecido
Ninguém me dá do que sou dono
Porque eu possuo sem ser possuído
Se basta olhar-me em seu reflexo
Por que integrar-me inteiro no Universo?

Herói do medo, odeio a mãe
Por ter nascido e odeio mais a amante
Por ter amado; que há de sofrer
Pra que se avilte e há de morrer pra que eu
Me ressuscite em liberdade
Pois entre dois amei a mim somente
E as mulheres, são para o herói
O passatempo estéril dos covardes

Herói do medo, imolo a vítima
Que aplaca a vida íntima do herói
E aos vencidos (compatriotas)
O meu desprezo, porque nas derrotas
Não movo um dedo por impedir
Com vencedores eu me identifico
E justifico conquistadores
Por seu direito extremo de oprimir
Herói do medo, execro o mundo
E a humanidade, sem lhe ver a face
Pretendo ao prêmio sem correr riscos
E conquistar a glória em luta fácil
Do comodismo desta moral
Falta de ação, mas pródiga de gestos
Lanço um olhar ao meu passado
Me paraliso e me converto em sal ...

O disco foi proibido pela censura, e liberado
em 1975, quando o compositor já não estava
mais no Brasil. Foi vetada por ser uma
suposta mensagem patológica e o autor
apresentar ego psicótico, por isso foi
proibida a gravação.
Liberada em 1975, na letra, os censores
também grifam várias expressões e palavras
que poderiam incomodar os militares, como
“difamo”, “odeio a mãe por ter parido”,
“o passatempo estéril dos covardes”.
No álbum “Herói do Medo”, outras
músicas também incomodaram a Divisão
de Censuras e Diversões Públicas:
“O Segredo”, “O Mutilado”, “Superamor”,
“Era uma Vez a História”. Carlos Lyra
não alterou o conteúdo das letras.

fonte: censuramusical

Respostas

  1. Oi Lara, muito bom este resgate destas nossas expressões artísticas censuradas por aqueles que refletiam monstros nos seus refléxos sombreados nas paredes. Em verdade, esta letra é tão atual que mesmo não existindo hoje um censor na prática, aqueles que assumiram este ofício por dogma da geração verde-oliva arenosa, ainda enxergam nela uma citação ateu-comunista de um lunático psicótico.
    Continue que tá legal…
    Um abraço!!!


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