Carlos Lyra – Música: Herói do medo
Herói do medo, não tenho medo Do próprio medo que me torna herói Com minhas regras eu faço o jogo E logro um único parceiro: eu Eu sou o primeiro e sou o último Mas não assumo a condição humana E me proclamo meu soberano Na solidão despótica de um Deus Herói do medo escrevo as tábuas Da autoridade que repousa em mim Pra que na terra não a despertem Vou caminhando, em sonho, sobre as águas Meu rastro assombra os cães de fila E rende as preces das mães de família Mais prevalece minha arrogância Entre animais, mulheres e crianças Herói do medo, firo e difamo E me alimento da fraqueza humana Com altivez eu dou e tomo Mas não recebo nunca o oferecido Ninguém me dá do que sou dono Porque eu possuo sem ser possuído Se basta olhar-me em seu reflexo Por que integrar-me inteiro no Universo? Herói do medo, odeio a mãe Por ter nascido e odeio mais a amante Por ter amado; que há de sofrer Pra que se avilte e há de morrer pra que eu Me ressuscite em liberdade Pois entre dois amei a mim somente E as mulheres, são para o herói O passatempo estéril dos covardes Herói do medo, imolo a vítima Que aplaca a vida íntima do herói E aos vencidos (compatriotas) O meu desprezo, porque nas derrotas Não movo um dedo por impedir Com vencedores eu me identifico E justifico conquistadores Por seu direito extremo de oprimir Herói do medo, execro o mundo E a humanidade, sem lhe ver a face Pretendo ao prêmio sem correr riscos E conquistar a glória em luta fácil Do comodismo desta moral Falta de ação, mas pródiga de gestos Lanço um olhar ao meu passado Me paraliso e me converto em sal ...
O disco foi proibido pela censura, e liberado em 1975, quando o compositor já não estava mais no Brasil. Foi vetada por ser uma suposta mensagem patológica e o autor apresentar ego psicótico, por isso foi proibida a gravação. Liberada em 1975, na letra, os censores também grifam várias expressões e palavras que poderiam incomodar os militares, como “difamo”, “odeio a mãe por ter parido”, “o passatempo estéril dos covardes”. No álbum “Herói do Medo”, outras músicas também incomodaram a Divisão de Censuras e Diversões Públicas: “O Segredo”, “O Mutilado”, “Superamor”, “Era uma Vez a História”. Carlos Lyra não alterou o conteúdo das letras. fonte: censuramusical
Oi Lara, muito bom este resgate destas nossas expressões artísticas censuradas por aqueles que refletiam monstros nos seus refléxos sombreados nas paredes. Em verdade, esta letra é tão atual que mesmo não existindo hoje um censor na prática, aqueles que assumiram este ofício por dogma da geração verde-oliva arenosa, ainda enxergam nela uma citação ateu-comunista de um lunático psicótico.
Continue que tá legal…
Um abraço!!!
Por: Roberto Martins em Novembro 12, 2008
às 12:09 pm