Publicado por: Lara | Março 28, 2009

Revista Realidade – um jornalismo puro, mas visto como prejudicial às pessoas

Devido meu interesse pelos anos 60 e 70, escrevi um texto sobre a Revista Realidade, que foi um marco na história da imprensa brasileira na década de 60 que merece destaque e ser lembrada sempre.

 

Criada em abril de 1.966, na época da ditadura militar, a revista Realidade abordava assuntos dos mais diferentes tipos das outras tradicionais da época. Possuía uma linha editorial livre, assim, os jornalistas publicavam matérias sobre qualquer assunto, como questões sociais, sexo, ciência, virgindade, comportamento, com um enfoque no jornalismo investigativo (denúncia).

A equipe da revista inspirava-se nas ambições estéticas do new journalism norte-americano. A revista é o espaço onde pode exercitar o fluxo de atenção lingüística e cronológica (ordem cronológica dos acontecimentos), fazem infográficos, gráficos, tentando resgatar os acontecimentos.

Foi lançada sua primeira edição em 1.965, com 5.000 exemplares, e a cada publicação o número de tiragem aumentava, chegando aos 500.000 exemplares. Mas, isto durou pouco tempo, exatamente 10 anos, tempo este em que a revista circulou no país.

José Hamilton Ribeiro, redator-chefe da Realidade, tentou fazer com que a revista não perdesse sua autenticidade, mantendo sua linha editorial. Depois de um tempo de publicação, os juízes julgaram seu conteúdo como indigesto, chegando a mandar militares recolherem o material jornalístico das bancas, por mostrar pela primeira vez na história do jornalismo a foto e matéria completa de uma mulher no momento do parto, em um “ângulo ginecológico”. Teve também em uma reportagem sobre a Amazônia, onde mostrava imagens de uma onça pintada sem a pele e toda ensangüentada, mas esse era seu objetivo, mostrar a realidade nua e crua.

Ribeiro relembra “Estive na guerra”, era o repórter escolhido para fazer a cobertura da Guerra do Vietnã, onde acabou pisando em uma mina terrestre, perdendo assim parte da perna esquerda, sua matéria explicita a dor e sofrimento do jornalista, juntamente com uma foto dele ferido.

Em 1.968, a revista sofreu uma enorme censura, com o surgimento do AI – 5 (olha o A.I. aí denovo). Grande parte de seu jornalismo investigativo, seus assuntos polêmicos, foram proibidos. O tempo foi se passando e a maioria dos jornalistas foram se demitindo, alegando falta de liberdade para publicarem as matérias desejadas.

Mas ainda assim, Realidade sobreviveu por 10 anos, período de 1.966 à 1.976, sendo publicado sua última edição com o nome de “1.976, Excepcional”. Formada na época por uma equipe excelente, como Victor Civita, Roberto Civita, Paulo Patarra, Sérgio de Souza, Narciso Kalili, Luiz Fernando Mercadante, José Hamilton Ribeiro, Carlos Azevedo, entre outros. A revista permanece na memória e história dos que participaram e dividiram aquele tempo, e das pessoas que ouviram falar sobre um bom jornalismo investigativo.


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